sábado, 31 de maio de 2014

9. Efeitos secundários de uma educação primária



As aulas tiveram várias consequências para a Célia. Primeiro, aprendeu muitas coisas que não sabia. Aliás, aprendeu a falar de maneira educada.
- Bom dia, Rui, dizia ao Rui, como está hoje?
- Bom dia, Bea, dizia à Bea, não lhe parece que hoje está calor?
- Bom dia, mãe, dizia à Socoro, você precisa de alguma coisa?
Esta forma nova de falar pareceu muito rara aos animais da quinta.
- Olha esta Célia, dizia o um ao outro, desde que começou as aulas fala diferente, como se fosse outra.
- Sim, respondia o outro, como se fosse outra. Como se nós não soubéssemos quem é realmente.
- Tornou-se muito arrogante.
- Isto é o que eu queria dizer.
- Que quer provar com este tipo de linguagem? Que é melhor do que nós?
- Deixa-a, se pensa que é melhor do que nós não merece a nossa atenção. Eu, na próxima vez não lhe falo.
- Eu também.
- Isto vai dar-lhe uma lição.
- Exactamente.
- Vai aprender que todos os animais merecem ser respeitados.
- Vai, sim.
Mas a Célia não dava conta do que diziam os outros animais sobre ela, porque a única coisa que a preocupava eram as suas aulas. Não queria decepcionar a sua professora. A final de contas, tinha-o prometido.
Um dia a Isolda falou-lhe da capoeira.
- Que é isto? perguntou a Célia.
- É um tipo de dança, que foi criada pelos escravos no Brasil, disse a Isolda.
- Brasil: grande país do sul do continente americano, disse a Célia, repassando uma das aulas anteriores.
- Muito bem, disse a Isolda. Esta dança foi uma maneira para os escravos praticarem artes marciais, sem o patrões perceberem. Porque os patrões achavam que os escravos cantavam e dançavam, mas eles preparavam-se para lutar.
- Muito interessante mesmo, disse a Célia. E como é esta dança?
- Pois, eu não a danço, mas posso explicar-lhe muitos dos seus movimentos.
- Gostava de aprender, disse a Célia.
Assim foi como a Célia começou as aulas da capoeira. E no início, seria uma mentira dizer que o fazia bem, porque não conseguia levantar os pés como devia. Aliás, na maioria das vezes, quando levantava um pé, perdia o seu equilíbrio e caía. Os outros animais da quinta riam-se muito, quando a viam fazer prática.
- O que estás a fazer aí? perguntavam-lhe.
- Danço capoeira, dizia ela.
- Ora essa, diziam, que mais vamos ouvir? Um pintainho que dança! Mas estás a dançar, mesmo? Porque, como vemos, estás a cair continuamente.
- Só preciso de fazer prática e vou melhorar.
- Pois, pois, mas não há outras danças para dançar? dizia um dos animais. Disseram-me que o tango é muito melhor.
Os outros animais desatavam a rir.
- A capoeira é uma arte marcial, ignorantes! dizia ela e continuava as provas.
- Arrogante! diziam os outros animais e deixavam-na em paz.
E a Célia, pouco a pouco, melhorou. E a sua dança começou a lembrar a capoeira de verdade.
- Mas porque fazes tudo isto? perguntou-lhe um pintainho. Para que te vai servir?
- O mesmo faziam os escravos no Brasil e conseguiram liberar-se dos seus patrões.
- Este Brasil não sei o que é, disse o pintainho...
- É um país, longe de aqui.
- E porque temos de liberar-nos? Não somos livres para comer, para dormir, para viver?
- Não, não somos livres. A dona Elvira pode fazer connosco qualquer coisa queira. E não nos vai perguntar se concordamos ou não.
- A dona Elvira é uma senhora muito boa e não nos vai fazer nada mau. Acho que estás louca.
- Pois eu acho que todos na quinta devíamos aprender a capoeira. Porque se for preciso escapar, devemos estar prontos.
- As aulas não te fazem bem, disse o pintainho. Ninguém quer escapar daqui. Se queres, escapa sozinha.
O pintainho foi-se embora. A Célia pensou que talvez ela tivesse errado, mas depois pensou melhor.
- Eu vou continuar. Se os outros não me percebem, o problema é seu, não meu.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

8. Aulas particulares



Assim foi como a Isolda a coruja começou a dar aulas à Célia, que dava muito prazer à sua professora, porque estudava sempre. Uma das primeiras coisas que ficou a saber foi que a lua não era um queijo enorme.
- Que engraçado! riu a Isolda, que normalmente era uma coruja séria. A lua é um queijo? Quem lho disse?
A Célia sentiu vergonha.
- O Rodrigo, o meu amigo, disse em voz baixa.
- Pois, este Rodrigo não sabe nada mesmo.
- Mas é como o Gruyére, começou a dizer a Célia, o queijo com os buracos, não vê os buracos sobre a lua?
- Menina, atenção! Quem é o seu professor: o Rodrigo ou eu?
A Célia baixou a cabecinha.
- Bom, já que sou eu a sua professora e eu digo que a lua não é queijo, isto é a verdade. Fique a saber, então, que a lua é um planeta, exactamente como a terra...
- Mas a terra não é queijo...
- Exactamente! A lua, então, é um planeta como a terra, mas ninguém vive lá, porque não há ar para respirar.
- E os buracos?
- Os buracos são sinais de meteoritos que alguma vez caíram sobre a lua.
- Que significa «meteoritos»?
- Os meteoritos são pedras enormes que viajam pelo espaço.
A Célia ficou com o bico aberto. Quantas coisas sabia a Isolda! Sempre tinha uma resposta pronta para dar. Era uma sábia mesmo.

- Quando for grande, quero ser professora também, disse um dia.
- Bom, isto não é uma profissão tradicional das galinhas, disse a Isolda. Para nós, as corujas, é uma coisa normal, mas para as galinhas é muito raro.
A Célia sentiu decepcionada.
- Mas, continuou a Isolda, se uma pessoa trabalha muito e é boa, consegue o que quer.
- É verdade?
- Pois, claro! Os livros da história estão cheios de histórias sobre pessoas comuns, que trabalharam muito e conseguiram tornar-se grandes. Se você trabalha muito e continua a estudar como tem estudado até agora, não vejo porque não pudesse ser uma professora de galinhas! Se a galinhas querem aprender, claro...
- Então, há livros com histórias de pessoas comuns? E de pintainhos como eu?
- De pintainhos como você não acho, disse a Isolda. Mas há livros assim, sobre pessoas comuns. Infelizmente, somente os homens têm livros. Os animais normalmente passam a história oralmente, «de boca em boca», como se diz.
- Você viu alguma vez um livro?
- Eu pertenço a uma família de filósofos e de professores: claro que tenho visto muitos livros na minha vida!
- Muitos? Onde?
- Numa biblioteca. As bibliotecas são casas cheias de livros.
Outra vez a Célia ficou com o bico aberto. Havia neste mundo casas cheias de livros, enquanto ela nunca tinha visto nem sequer um. Se pudesse ver um livro seria muito feliz mesmo.
- Onde posso eu ver um livro?
- Não sei, mas talvez a dona – como se chama...?
- Dona Elvira...
- Talvez a dona Elvira tenha livros. Quando uma pessoa tem livros, chega um dia que decide abrir um de eles.
- E que acontece depois?
- Depende do livro. Se o livro é um livro de história, por exemplo, a pessoa torna-se mais sábia. Se o livro é de literatura, pode divertir-se e querer lê-lo outra vez.
- E que significa «literatura»?
- A literatura é um tipo de arte. É a arte das palavras. Em outras palavras, todos os contos são literatura.
- Então, é literatura que a lua é um queijo?
- É o clássico tipo de literatura.
- Imagina, pensou a Célia, se o Rodrigo o soubesse! É um artista de literatura e ninguém o sabe. Todos pensam que é um animal que não vale nada, mas ele é o único artista que eu conheço!
- Não pensa em ser artista quando for grande? perguntou a Isolda. Isto seria uma catástrofe.
- Uma quê?
- Bom, a hora já passou, basta por hoje. Continuamos amanhã. Vamos trabalhar sobre o seu vocabulário. E vou explicar-lhe também o que é uma catástrofe. Ainda temos muito trabalho.

sábado, 24 de maio de 2014

7. Uma visita diferente



Passaram dias. A Célia continuou a acordar tarde e a dormir tarde, e continuou a conversar com o Rodrigo e a ter muitas perguntas. Uma noite, que ainda estava acordada e o Rodrigo ainda não tinha chegado, ouviu-se um som novo. E este som não era pft-pft, como fazia o Rodrigo, mas era frrrrrt-frrrrrrrrrrrrt, e depois ouviu-se algo bater na parede, provavelmente, e depois ouviu-se uma voz:
- Ai! disse a voz.
A Célia procurou ver quem era, mas aquela noite era bastante escura porque a lua era muito pequena, como é a fatia da melancia que fica depois de termos comido a parte vermelha. Seria uma daquelas noites que o céu está quente.
- Ai, que dor! disse a voz outra vez.
- Quem está aí? perguntou a Célia. Rodrigo, não serás tu?
- Os meus óculos, onde estão os meus óculos?
- Quem está aí? repetiu a Célia.
Uma sombra via-se na escuridão. Uma sombra que se mexia.
- Ei-los! disse a voz.
A sombra pôs uma coisa à sua cabeça.
-  Muito melhor assim, disse a voz. E menos mal que não parti nenhuma asa.
A Célia conseguiu ver um bocadinho melhor. Tratava-se de uma ave, aparentemente.
- Quem és? perguntou à ave-sombra.
Ela ficou imóvel.
- Ah, um pintainho! disse a sombra um pouco depois.
- Podes ver-me? perguntou a Célia.
- Primeiro, menina, disse a sombra, devo dizer uma coisa muito importante: venho de uma família muito antiga e importante e não estou acostumada às formas de expressâo vulgais.
- Vulgais? Que queres dizer com isto?
- Ó, meu Deus, disse a ave-sombra, mais um pintainho sem educação alguma!
Suspirou.
- Não me sinto obrigada a responder a perguntas que não se formulam de maneira educada. O pronome «tu» não existe no meu vocabulário. Por isto, se faz favor, pode falar conmigo usando a terceira pessoa.
- Quem é esta terceira pessoa? Eu não a conheço.
- Meu Deus, uma analfabeta! suspirou a ave-sombra.
- Analfaquê?
- Deixe-o. Pelo menos, sabe falar usando o pronome «você»? Seria algo...
- Aqui todos falamos usando o pro..., o «tu», disse a Célia.
- Plebeus! disse a ave-sombra com desdém.
- Olha, senhora, falas com palavras difíceis e eu não percebo nada. Porque não me dizes quem és? Eu chamo-me Célia.
- O meu nome inteiro, menina mal-educada, é Isolda Leopoldina Fon Vais Fider...
- Fon quê?
- For Vais Fider e por favor não me interrompa. Sou descendente da famosa família de filósofos Fon Vais Fider da parte do meu pai, e da família Braun-Flunguen – uma família toda educadores – da parte da minha mãe. Como pode ver, não sou uma coruja qualquer.
- Uma coruja?
A Isolda Leopoldina Et Cétera parou de falar.
- Desculpa, disse a Célia.
- Desculpe, disse a Isolda Et Cétera. Esta é a forma educada de falar.
- Desculpe, então.
- Como estava a dizer, continuou a Isolda Et Cétera, não sou uma coruja qualquer, sou uma coruja da alta sociedade e tenho uma enorme linha familiar. Conheço todos os meus antepassados, e todos foram muito importantes.
A Célia não sabia o que dizer.
- A menina viu por acaso uma rata por aqui?
- Uma rata! exclamou a Célia, que imediatamente pensou no Rodrigo. Não, não vi, porque?
- Já sei, as ratas são animais repulsivas, mas nós também – as corujas, quero dizer – precisamos de comer. Então...
- Aqui não vêm ratas, mentiu a Célia.
- Hm, muito raro, disse a Isolda Et Cétera. Mas, diga me, por favor, o que faz um pintainho acordado tão tarde? As galinhas dormem muito cedo...
- Não consigo dormir porque penso...
- Um pintainho pensador... será? E, se me permite, em que coisas pensa?
- Tenho muitas perguntas, mas não posso encontrar as respostas. Aqui na quinta ninguém sabe responder-me. Somente o Rodrigo...
- O Rodrigo? Quem é este Rodrigo?
- Um amigo, disse a Célia que deu conta que quase tinha traído o seu amigo.
- Sinto dizer que as respostas não as conhecem todos. O dom da sabiduria está reservado para poucos, e as corujas estão entre aqueles poucos.
- Então, tu sabes dar-me respostas?
- A senhora sabe dar-me respostas? disse a Isolda Et Cétera.
- Qual senhora?
- Ó, meu Deus, esta é a forma educada de falar!
- A senhora sabe, então, dar-me respostas?
A Isolda Et Cétera olhou para a Célia. Aquele pintainho tinha uma chama nos seus olhos, uma chama que nunca tinha visto nos olhos dos seus alunos.
- Eu normalmente dou aulas à corujas, a pintainhos não, disse à Célia. Mas, tenho de reconhecer que a menina tem uma chama nos seus olhos... Há muito tempo que não vi esta chama... Muito bem, então. Vou dar-lhe aulas, mas, atenção: não vou permitir preguiças, a menina tem de estudar... E tem de falar de maneira educada.
- Vou estudar, sim, disse a Célia. E vou falar como se deve falar. Prometo-o.
- Pois, começamos amanhã. E agora vou procurar comida. Tenho uma fome enorme.
A Isolda Et Cétera abriu as asas e voou fora da casa dos animais. A Célia sentiu-se muito feliz. Por fim, ia encontrar respostas!
E naquela noite teve o seus sonhos melhores.