sábado, 17 de maio de 2014

5. Umas respostas diferentes



A noite chegou outra vez e a Célia outra vez não consiguia dormir. Estava a pensar. Mais um dia tinha passado e ela não tinha aprendido quase nada. Bom, tinha aprendido que há animais bons e animais maus, mas mesmo assim, não era nada satisfeita.
Através da janelinha, o céu parecia tão bonito como na noite anterior. Somente a lua parecia um bocadinho diferente. Parecia maior, a Célia tinha certeza disto.
De repente ouviu-se um som familiar: pft-pft, pft-pft-pft...
- Rata, disse a Célia, és tu?
- Sim, disse a rata, mas porque não me chamas pelo meu nome?
- Mas, não conheço o teu nome...
- Não to disse ontem? Que falta de educação da minha parte! Peço humildamente desculpa, mas, agora que o penso melhor, nem eu conheço o teu nome...
- Chamo-me Célia, disse a Célia.
- Pois, muito prazer, Célia, disse a rata e fez uma pequena reverência. Eu chamo-me Rodrigo, à tua disposição.
- Muito prazer, Rodrigo, disse a Célia. Mas, a verdade é que talvez não devesse falar contigo.
- E porque?
- Bom, disse a Célia, hoje estive a falar com o Rui, e ele disse-me que as ratas não são boas...
- E quem é este Rui? Pode-se saber?
- O Rui é o suíno que está a dormir lá dentro.
- Pois, pois, disse o Rodrigo, um suíno, naturalmente. Não esperava eu nada melhor de um suíno.
- Então, as ratas não são más? A dona Elvira ama todos os animais e dá de comer a todos, mas às ratas não dá porque as ratas são más, isto foi o que me disse o Rui...
- Sim, sim, já sei, é aquele famoso conto popular... Isto, minha querida, é o que dizem aqueles que têm tudo sobre aqueles que não têm nada. Mas ser pobre não é um pecado, não senhora!
- Não sei, disse a Célia, talvez tu tenhas razão. O Rui não sabia responder a muitas das minhas perguntas...
- Pois claro que tenho razão, disse o Rodrigo. Porque é que eu sou mau? Porque não tenho tecto e tive de construir a minha casa com as minhas próprias mãos? Porque não há comida à minha espera, mas sou eu quem tem de procurar a comida? Porque, para evitar os perigos do dia saio de noite? Pois, sabes, eu sou uma rata de família, não sou uma rata qualquer!
- Tens família, então? perguntou a Célia.
- Pois claro! Tenho mulher e quinze filhos!
- Quinze?
- Sim, quinze: o Ronaldo, o Roberto, o Rolando, o Ricardo, o Rulfo...
- Só meninos?
- ..., a Romilda, a Renata, a Regina, a Rita, a Rosina, a Raquel, a Rebeca e a Rosália.
- E a tua mulher, como se chama?
- Remédios. Somos uma família toda roedores.
O Rodrigo riu. A Célia riu também.
- Ó, Rodrigo, disse a Célia um pouco depois, hoje a lua não parece maior do que ontem?
- Sim, disse o Rodrigo, depois de ter olhado para a lua. Assim é. Às vezes, a lua torna-se menor, às vezes torna-se maior. Depende da temperatura do céu.
- Depende da temperatura?
- Sim, porque não sei se tu o sabes, a lua é um grande queijo.
A Célia olhou para a lua. Seria um queijo mesmo?
- Sim, continuou o Rodrigo, como se tivesse ouvido a pergunta. É um queijo muito saboroso, tipo Gruyére, sabes o que é o Gruyére?
A Célia não sabia.
- Pois, o Gruyére é um queijo com muitos buracos, grandes e pequenos, vês os buracos sobre a lua?
A Célia olhou, sim, havia buracos.
- Vês, então, que tenho razão, disse o Rodrigo, muito satisfeito consigo mesmo. Bom, como todo o mundo sabe, o queijo derrete quando se aquece. Então, quando a temperatura do céu é alta, a lua derrete e diminui. Quando está frio no céu, a lua aumenta. É pura ciência.
A Célia ficou pensativa e maravilhada.
- Oxalá tivesse asas para voar, suspirou o Rodrigo. Se pudesse voar, escolhia uma noite fria e, com a família toda, voava alto até à lua, e comia quanto mais pudesse. Mas não tenho asas... Tu, por outro lado, tens asas, mas também não podes voar... Aliás, tu não comes queijo, a lua não te serve...
A Célia não disse nada.
- Ó, Célia, disse o Rodrigo, estás aí? Célia!
Mas a Célia não o ouviu, já estava a dormir com luas de queijo, cheias de ratas...
- Boa noite, então, disse o Rodrigo.

Sem comentários:

Enviar um comentário