Passaram dias. A Célia continuou a acordar
tarde e a dormir tarde, e continuou a conversar com o Rodrigo e a ter muitas
perguntas. Uma noite, que ainda estava acordada e o Rodrigo ainda não tinha
chegado, ouviu-se um som novo. E este som não era pft-pft, como fazia o
Rodrigo, mas era frrrrrt-frrrrrrrrrrrrt, e depois ouviu-se algo bater na
parede, provavelmente, e depois ouviu-se uma voz:
- Ai! disse a voz.
A Célia procurou ver quem era, mas aquela
noite era bastante escura porque a lua era muito pequena, como é a fatia da
melancia que fica depois de termos comido a parte vermelha. Seria uma daquelas noites
que o céu está quente.
- Ai, que dor! disse a voz outra vez.
- Quem está aí? perguntou a Célia.
Rodrigo, não serás tu?
- Os meus óculos, onde estão os meus
óculos?
- Quem está aí? repetiu a Célia.
Uma sombra via-se na escuridão. Uma sombra
que se mexia.
- Ei-los! disse a voz.
A sombra pôs uma coisa à sua cabeça.
- Muito
melhor assim, disse a voz. E menos mal que não parti nenhuma asa.
A Célia conseguiu ver um bocadinho melhor.
Tratava-se de uma ave, aparentemente.
- Quem és? perguntou à ave-sombra.
Ela ficou imóvel.
- Ah, um pintainho! disse a sombra um pouco
depois.
- Podes ver-me? perguntou a Célia.
- Primeiro, menina, disse a sombra, devo
dizer uma coisa muito importante: venho de uma família muito antiga e
importante e não estou acostumada às formas de expressâo vulgais.
- Vulgais? Que queres dizer com isto?
- Ó, meu Deus, disse a ave-sombra, mais um
pintainho sem educação alguma!
Suspirou.
- Não me sinto obrigada a responder a
perguntas que não se formulam de maneira educada. O pronome «tu» não existe no
meu vocabulário. Por isto, se faz favor, pode falar conmigo usando a terceira
pessoa.
- Quem é esta terceira pessoa? Eu não a
conheço.
- Meu Deus, uma analfabeta! suspirou a
ave-sombra.
- Analfaquê?
- Deixe-o. Pelo menos, sabe falar usando o
pronome «você»? Seria algo...
- Aqui todos falamos usando o pro..., o
«tu», disse a Célia.
- Plebeus! disse a ave-sombra com desdém.
- Olha, senhora, falas com palavras
difíceis e eu não percebo nada. Porque não me dizes quem és? Eu chamo-me Célia.
- O meu nome inteiro, menina mal-educada,
é Isolda Leopoldina Fon Vais Fider...
- Fon quê?
- Fon Vais Fider e por favor não me interrompa.
Sou descendente da famosa família de filósofos Fon Vais Fider da parte do meu
pai, e da família Braun-Flunguen – uma família toda educadores – da parte da
minha mãe. Como pode ver, não sou uma coruja qualquer.
- Uma coruja?
A Isolda Leopoldina Et Cétera parou de falar.
- Desculpa, disse a Célia.
- Desculpe, disse a Isolda Et Cétera. Esta
é a forma educada de falar.
- Desculpe, então.
- Como estava a dizer, continuou a Isolda
Et Cétera, não sou uma coruja qualquer, sou uma coruja da alta sociedade e
tenho uma enorme linha familiar. Conheço todos os meus antepassados, e todos
foram muito importantes.
A Célia não sabia o que dizer.
- A menina viu por acaso uma rata por aqui?
- Uma rata! exclamou a Célia, que
imediatamente pensou no Rodrigo. Não, não vi, porque?
- Já sei, as ratas são animais repulsivas,
mas nós também – as corujas, quero dizer – precisamos de comer. Então...
- Aqui não vêm ratas, mentiu a Célia.
- Hm, muito raro, disse a Isolda Et Cétera.
Mas, diga me, por favor, o que faz um pintainho acordado tão tarde? As galinhas
dormem muito cedo...
- Não consigo dormir porque penso...
- Um pintainho pensador... será? E, se me
permite, em que coisas pensa?
- Tenho muitas perguntas, mas não posso
encontrar as respostas. Aqui na quinta ninguém sabe responder-me. Somente o Rodrigo...
- O Rodrigo? Quem é este Rodrigo?
- Um amigo, disse a Célia que deu conta
que quase tinha traído o seu amigo.
- Sinto dizer que as respostas não as
conhecem todos. O dom da sabiduria está reservado para poucos, e as corujas
estão entre aqueles poucos.
- Então, tu sabes dar-me respostas?
- A senhora sabe dar-me respostas? disse a
Isolda Et Cétera.
- Qual senhora?
- Ó, meu Deus, esta é a forma educada de
falar!
- A senhora sabe, então, dar-me respostas?
A Isolda Et Cétera olhou para a Célia.
Aquele pintainho tinha uma chama nos seus olhos, uma chama que nunca tinha
visto nos olhos dos seus alunos.
- Eu normalmente dou aulas à corujas, a
pintainhos não, disse à Célia. Mas, tenho de reconhecer que a menina tem uma
chama nos seus olhos... Há muito tempo que não vi esta chama... Muito bem, então.
Vou dar-lhe aulas, mas, atenção: não vou permitir preguiças, a menina tem de
estudar... E tem de falar de maneira educada.
- Vou estudar, sim, disse a Célia. E vou
falar como se deve falar. Prometo-o.
- Pois, começamos amanhã. E agora vou procurar
comida. Tenho uma fome enorme.
A Isolda Et Cétera abriu as asas e voou
fora da casa dos animais. A Célia sentiu-se muito feliz. Por fim, ia encontrar
respostas!
E naquela noite teve o seus sonhos
melhores.
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